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Home | Ano II - Nº 6 - Jan / Fev / Mar / 2006
A universidade pública
Greve de docentes: muita luta, poucos interessados, milhões de espectadores
Edson Fred Rodrigues Veloso e Maria Pirauá Alves Gonçalves

 

Por uma campanha salarial nacional e em busca de melhores condições de trabalho o Sindicato Nacional dos Docentes enviou a proposta de greve para os seus sindicatos em cada universidade do país. A greve nacional, deliberada em 30 de agosto passado, durou mais de 100 dias e foi considerada a quarta maior já realizada pelos docentes. Seu principal inimigo: o Governo Federal.

Foi dentro desse bojo que no dia último 19 de setembro, os professores da UFPE decretaram o estado de greve. Antes de fazê-lo, o debate que ocorria dentro dos muros da universidade, e somente dentro deles, era a validade deste tipo de manifestação. Se a greve era uma forma que poderia trazer melhorias para o ensino superior brasileiro ou algo que já não sensibilizaria o governo a ponto de ceder a vontade da classe docente. Com a universidade parada, as conseqüências para o povo brasileiro são mais do que graves, porém, a população desconhece os fatos e não se agrega à luta pela universidade pública.

O movimento de greve surgiu em Roma quando os plebeus se retiraram da cidade e ameaçaram fundar uma nova Roma em um local distante. Os patrícios, cidadãos que dominavam aquela sociedade, recuaram e cederam a uma série de reivindicações da classe plebéia. É válido notar, então, que a greve moderna sugere o mesmo meio de luta: o cruzar de braços; o fim da produção de mais-valia para a burgue-sia, a quebra do andamento normal do sistema de acúmulo de capital. O que acontece, porém, é que nas universi-dades públicas não se produz mais-valia e nem o parar da carruagem significa a quebra do sistema vigente. Fazer greve no ensino superior gratuito significa o fim de um processo de direito humano. É relevante dizermos que o direito à educação deveria significar um dever do estado, e que esse, como provedor, é responsável por oferecer condições às universidades de exercerem seu papel de construir cida-dania através do seu tripé indissociável: ensino, pesquisa e extensão. Por entender essa busca como algo fundamental é que a classe docente utiliza-se da greve como instrumento.

Analisando de maneira concreta, podemos ver que o Governo Lula pou-co fez pela educação; editou medidas como o Prouni, que trabalha com uma demanda legítima (a falta de vagas no ensino público de 3º grau), para trans-ferir o dinheiro público para o ensino privado. A reforma universitária é um ataque direto ao ensino superior brasileiro. Feita de maneira ambígua e sem diálogo entre os movimentos sociais, a reforma representa o que o MEC e o governo entendem como o futuro da universidade brasileira: o fechamento e privatização.

É dentro dessa lógica, que o MEC negociou com os professores uma série de propostas que não representam nenhum avanço. Sugeriram um au-mento de 9%, que deveria ser, no mínimo, 18%. A paridade entre ativos e inativos também não foi garantida, assim como outras propostas. As atitu-des do Governo foram mais uma tentativa de conter os ânimos do que um verdadeiro avanço nessa luta.

E se por um lado a causa docente é justa, por outro é alarmante ver que poucos são os professores que lutam por ela. As assembléias da Associação dos Docentes da UFPE estiveram, em número de presentes, muito aquém do desejado. Alguns professo-res que votaram a favor da interrupção das aulas acabaram por utilizar o tempo livre para se dedicar às pesquisas, que são priorizadas frente a seu papel docente na universidade. Os que votaram contra a greve, e perderam, em geral também não compareceram aos espaços de reunião dos professores. Outros continuaram suas aulas, de-monstrando descaso pela causa dos demais. Fato é que não se viu grande mobilização e que a classe docente deixou a responsabilidade às lideranças da associação local e nacional.

Apesar dos esforços do movimento estudantil, boa parte dos discentes entenderam a greve como um período de férias. Não perderam, contudo, a chance de difamar os professores grevistas pela situação.

Ao povo brasileiro cabe, com tristeza, observar o completo desprezo daqueles que deveriam zelar pelo direito humano à educação. Não há nin-guém nas ruas fazendo passeatas pela greve e não se pode obrigar a fazê-las ou culpar os que lutam por melhores condições pela apatia da mesma. De um governo ligado aos interesses privados poderia se esperar esse tipo de ação, poderia se esperar, inclusive, sua indiferença para com o ensino brasileiro, mas daqueles que geram o conhecimento e dos que o recebem não podemos aceitar essa postura. Precisamos pedir perdão a todos nesse país que não tem direito à educação universitária gratuita e de qualidade.

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